terça-feira, 11 de junho de 2013

A narcoguerrilha é o pesadelo amazônico

Integrante do Sendero Luminoso viveu a maior parte seus 51 anos na mais absoluta clandestinidade

A leitura da sentença durou sete horas. Já era noite no Brasil quando ouviu-se de um juiz na sala do tribunal penal de Lima, sexta-feira passada: “Florindo Eleuterio Flores Hala, codinome Artemio, está condenado à prisão perpétua e multa de US$ 150 milhões.”

O “camarada” Artemio foi o último preso e condenado entre os líderes “históricos” do Sendero Luminoso, a mais sanguinária organização terrorista da América do Sul.

Criado em 1980 por um grupo de professores universitários de Direito e Filosofia (Artemio foi o único não graduado admitido no comitê central), o Sendero inspirou-se nas ideias do líder chinês Mao Tse-Tung, que durante três décadas deteve poder absoluto sobre um quarto da população mundial e deixou um rastro de mais de 70 milhões de mortos em tempos de paz.

O Sendero é uma organização singular na história recente do terrorismo sul-americano. Matou mais de 31 mil pessoas na sua primeira década e meia de atividade, informa a Comissão da Verdade peruana. Sua carnificina supera, em número de vítimas, a soma de argentinos e chilenos mortos e desaparecidos durante as ditaduras militares. Ou seja, os maoístas peruanos mataram mais do que os generais Rafael Videla, na Argentina, e Augusto Pinochet, no Chile, juntos.

Artemio viveu a maior parte seus 51 anos na mais absoluta clandestinidade, num perímetro de montanhas e selva 300 quilômetros a nordeste de Lima, e a cerca de 700 quilômetros da fronteira com o Brasil. Sua identidade só foi descoberta quando contava 48 anos. O repórter Oscar Castilla, do jornal El Comercio, o identificou como o segundo de oito irmãos de uma modesta família de Arequipa, que no início dos anos 80 trocara o Exército pela guerrilha maoísta.

Sua ascensão ao comitê central foi rápida, pavimentada pela hegemonia armada na proteção às áreas de cultivo de coca e ao transporte de cocaína da região do vale do Huallaga em direção à Colômbia e ao Brasil. Há três anos, numa rara entrevista a Gustavo Gorriti, autor de um excelente livro (”Sendero”), Artemio esgrimiu com o argumento político preferido da guerrilha para justificar a aliança com o narcotráfico: “Tínhamos três objetivos - contra o imperialismo, contra o capitalismo burocrático e com a semi-feudalidade -, mas não podíamos lutar com todos ao mesmo mesmo tempo”.

Seu poder esteve assentado sobre um fluxo de caixa de US$ 50 milhões anuais, com um efetivo de 250 homens armados. Dos "impostos" cobrados ao narcotráfico, Artemio evoluiu para atentados e extorsões contra empresas que perfuravam a selva peruana atrás de petróleo. Os governos do Peru e dos Estados Unidos uniram-se na oferta de um prêmio de US$ 5,5 milhões por sua cabeça.

Num sábado, 11 de fevereiro do ano passado, o “camarada” Artemio caiu ferido nos fundos de um barraco no vilarejo de Pólvora (província de Tocache), em plena amazônia peruana. Traído e abandonado pelos guarda-costas seduzidos pela recompensa milionária, foi recolhido pelo Exército e levado a julgamento. Na sentença de sexta-feira atribuíram-lhe 500 atos de terrorismo, assassinato de 60 policiais e um promotor, além de um número impreciso de vítimas civis.

A guerrilha sobrevive aliada ao narcotráfico na Amazônia e avança na região de Camisea, o centro de produção gás e petróleo do Peru. Nessa região petroleira atuam três dezenas de empresas estrangeiras. Algumas, como Petrobras, procuram petróleo. Outras, como empreiteiras brasileiras, constroem ramais de gasoduto e estradas ligando o Acre ao Pacífico, via Lima. Na última grande ofensiva terrorista, em outubro passado, a Transportadora de Gas do Peru (TGP) viu-se obrigada a retirar 200 engenheiros e operários.

Há evidências de fortalecimento do Sendero na fronteira do Brasil, tem repetido Ricardo Soberón, ex-chefe da força antidrogas do Peru. É um dos que considera realista a possibilidade de "aliança com organizações criminosas brasileiras nas áreas de selva espessa e sem presença do estado".

A narcoguerrilha tornou-se um pesadelo amazônico. E transnacional.


O Globo
José Casado
TERÇA 11.06.2013 - 09:47
http://oglobo.globo.com/mundo/a-narcoguerrilha-o-pesadelo-amazonico-8646773

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